Depois daquele dia, tudo começou a parecer mais ameno, em uma falsa ilusão de segurança. Violet e eu estávamos realmente juntos agora, e isso me satisfazia como nada mais. Minha rotina patética, deprimente e soturna se tornou apenas um resquício, cuidadosamente apagada pela presença de Violet. Passávamos a maior parte do tempo juntos, mas ainda não havia chegado a hora para as perguntas que ressoavam dentro de ambas as mentes. Compartilhando a presença e paixão um do outro, conseguíamos a paz, que pelo menos a mim, era escassa desde alguns dias e que sempre seria muito bem-vinda.
Achei que a convivência com Emily se tornaria um pouco insustentável, mas após alguma resistência e cautela, ela se tornou mais amigável, principalmente com Violet. James, não sabendo de nada, apoiou completamente o relacionamento, mas em segredo, pois ele notara o desagrado de Emily, inicialmente, ao tocar no assunto.
Na escola, tínhamos que nos separar a maior parte do tempo, já que nosso horário de aulas raramente se cruzava, mas Emily agradecia de certa forma a privacidade que tinha para conversarmos. Ela ainda não confiava plenamente em Violet para conversar abertamente na frente dela.
_ Desde que você começou a namorar Violet, os outros vampiros não tem aparecido mais _ disse Emily, discretamente _ Eu não sei o motivo disso, mas com certeza eles ainda estão rondando. A reação da minha pedra tem sido bem menos freqüente.
_ Então você admite que de certa forma o meu namoro com ela trouxe alguns benefícios a todos nós, tais como a cessão dos ataques e a calmaria toda _ disse eu, sorrindo de canto para ela.
_ Bela tentativa _ disse ela rindo _ Eu estou muito feliz por você Matt, mas eu fui criada aprendendo a combater vampiros, então tem sido difícil a aceitação. Por favor, tente entender.
_ Eu entendo, mas sua aceitação é importante para mim, então dê uma chance a ela, ela realmente gosta de você.
_ Tudo bem _ disse ela, em um tom de derrota _ Eu vou tentar...
O sinal da entediante aula de história tocou e nos apressamos para sair logo dali e reencontrar nossos respectivos pares na saída. Apenas pelo fato de vê-la e sentir seus doces lábios fazia com que o vazio com o qual há muito eu me acostumara cessasse como se tudo fosse diferente do que era, ou pelo menos de tudo que tinha ocorrido. De lá fui para minha casa, mas dessa vez sem Violet, pois pela primeira vez em algum tempo Emily e eu nos sentíamos seguros para sair e então iríamos ao Eagle’s Shore. Então fomos, cada um para suas respectivas casas e nos reencontraríamos ao anoitecer.
Chegando em casa, corri para atender ao telefone. Eram meus pais que agora estavam em Budapeste me avisando que em cerca de um mês viriam passar uns tempos na cidade, em uma espécie de férias. Perguntaram sobre como tudo estava indo e eu, ignorando o fato de que em menos de duas horas iria sair com uma garota que poderia arrancar meu pescoço fora se quisesse, disse que estava tudo bem.
Como o usual, tomei um banho rápido, me arrumei como de costume, com uma blusa grossa e jeans acompanhadas de um tênis, quase sempre um coturno. Chequei meus e-mails e fiquei esperando James vir me pegar, ele viria junto com Emily e encontraríamos Violet lá.
Nos encontramos na frente do Eagle’s Shore, ambas as garotas estavam impecavelmente vestidas. Emily, com suas roupas escuras, mas que ainda transpareciam sua força interior e Violet, com um conjunto em tons verdes deslumbrante. Passamos a noite toda conversando, e mal comemos nem bebemos. Violet não comeu nada, e Emily trocou olhares comigo quando ela recusou a comida, esperando que James continuasse na sua paz habitual de espírito e não notasse nada estranho. Mas no geral, ela e Violet se deram muito bem, conversaram mais ate do que o resto do grupo e já estavam achando pontos em comum em ambas as vidas, apesar da de Emily provavelmente ser bem menor do que a de Violet.
Na volta, Violet me deixou em casa. Seu carro era de longe bem melhor que o meu, então passamos muito rápido pelas arvores no caminho de volta, algo que de certa forma eu lamentava. Paramos em frente a minha casa e nos beijamos. Depois de beijá-la, disse:
_ Eu estive pensando, e isso soou muito estranho na minha cabeça, como aposto que vai soar agora. Aonde você mora? _ Ela riu _ Sério, em todo esse tempo eu nunca soube aonde você mora.
_ Como amanhã é sábado, temos todo o dia livre. Então o que você acha de passar o dia na minha casa para variar dessa vez?
_ Por mim está ótimo. Espero você amanhã por cerca das nove horas. Não vamos querer desperdiçar algumas horas separados. _ Me curvei e dei-lhe outro beijo. _ Então, um breve adeus. Até amanhã.
_ Eu adoro esse seu entusiasmo, principalmente sem saber o que você vai encontrar, E se eu realmente morar em uma cripta ou mausoléu? _ disse ela rindo, ao ver que eu estava realmente cogitando a idéia. _ Até amanhã.
E com um último beijo nos despedimos. Subi as escadas, com minha mente flutuando em algum tipo de sonho ou ilusão cuidadosamente como se em um breve movimento brusco ela fosse esvaecer. Deitei em minha cama, olhando o quarto parcialmente arrumado e parcialmente bagunçado e percebi que assim era como minha vida estava. Meio bagunçada. Meio perfeita. E feliz por isso adormeci.
Acordei com o despertador irritante me chamando para mais um dia cheio. Olhei pela janela e vi que o dia estava tão tétrico como no dia anterior. Exatamente da forma com eu gostava. Coloquei uma roupa mais leve dessa vez, um suéter cinza, pois apesar do tempo fechado a umidade trazia um calor levemente sufocante sobre nós. Tomei apenas um copo de leite com alguns cereais, que foi apenas o que a ansiedade permitiu. O grande relógio brilhante perto da televisão só fazia aumentar a minha tensão, mostrando que ainda faltavam alguns minutos para Violet aparecer, ela era extremamente pontual. Ouvi o carro parando na frente da casa, peguei uma blusa e já fui para a porta encontrando, sem surpresa alguma Violet me esperando lá, apoiada na parede. Nos cumprimentamos devidamente e entramos no carro. Ela dirigia em grande velocidade, mas perfeitamente segura do que estava fazendo.
_ E então, para onde estamos indo? _ perguntei deixando minha curiosidade aflorar
_ Não muito longe, a casa fica perto dos limites da cidade. Mas você já deve tê-la visto. É o antigo solar dos Rosewood. Como eles não tinham nenhum herdeiro, a casa foi colocada à venda e eu a comprei. Então a reformei e me mudei pra cá, juntamente com uma funcionária que cuida da casa, a qual tem seu nome na escritura para que a casa não seja invadida por qualquer vampiro que não seja bem-vindo.
_ Entendi. Faz muito tempo que não passo por aquela casa, desde minha infância imagino.
Nos calamos e apenas ficamos observando a estrada e ouvindo uma música que ambos gostávamos no rádio. O espaço entre uma casa e outra começava a aumentar, nos certificando de que já estávamos chegando ao perímetro da cidade. As casas ali eram de certa forma espaçadas, como se fossem as típicas propriedades rurais isoladas retratadas nos filmes.
De certa distância pude ver a casa imponente se aproximando. Era branca com alguns detalhes em azul, composta por dois enormes andares, com grandes janelas envidraçadas. Tinha uma bela varanda e um grande espaço em volta, ocupado por um jardim meticulosamente cuidado, com diversas espécies de flores e árvores frutíferas. Era a casa mais perfeita que eu já vira.
Ela estacionou o carro em uma vaga reservada próxima a varanda. Subindo as escadas chegamos a uma grande porta de madeira ricamente entalhada, então a criada apareceu para nos receber. Por dentro a casa era quase o oposto do que se via lá fora, esbanjando modernidade por todos os cantos, mas ainda conservando um estilo encantadoramente barroco. Pensei, e percebi onde mais uma garota como essa poderia morar.
Violet me mostrou toda a casa, começando pela sala com a belíssima lareira, até o seu quarto localizado no segundo andar, ocupando grande parte deste. Tudo continha extremo bom gosto. O tempo voou enquanto permanecíamos naquela casa suntuosa, especialmente porque estava com ela. No horário do almoço, a criada nos propiciou um almoço incrível, mas como sempre Violet nem tocou na comida, deixando pra mim o ato de degustar todo aquele banquete.
A noite caiu e nenhum de nós estava propenso a se despedir, apesar de eu estar cansado por andar por toda a propriedade, provando diversas frutas no jardim e conhecendo cada canto da casa, incluindo porão e sótão. Eram mais de nove horas quando subimos para o quarto dela, após o jantar, semelhante ao banquete que fora o almoço. O quarto refletia a personalidade dela, era extremamente feminino, mas impunha uma presença forte. Enquanto ouvia o tipo de musica que ela gostava, ficamos deitados em sua cama, olhando o teto, sentindo o que a música nos dizia, até que perguntei a ela:
_ Vampiros precisam dormir?
_ Dormir exatamente não, pois tiramos nossa energia do nosso alimento. Mas podemos dormir e sonhar se assim quisermos.
_ Interessante _ disse, tendo minhas palavras permeadas por um bocejo.
Continuamos ali, sentindo um a mão do outro até que eu não pude ver mais o teto diante dos meus olhos, mas mesmo em meus sonhos podia vê-la e senti-la, impressionantemente bela e apaixonada. A minha obsessão. Para sempre.
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