A luz do sol que passava pelas cortinas nas janelas me acordou. Sonolento, olhei ao redor não reconhecendo o meu quarto. Eu me esquecera que havia adormecido na casa de Violet. Então recordei que adormecera ao seu lado, ouvindo as músicas que ela gostava. Nada havia acontecido, mas me pareceu imprudente fazê-lo, fazendo as advertências de Emily reboavam em minha cabeça.
Desci as escadas, sendo envolvido pelo cheiro de panquecas recém-preparadas. Na cozinha, pude ver Violet sentada no balcão me esperando enquanto sua empregada fazia as tão maravilhosas panquecas.
Violet e eu nos cumprimentamos discretamente devido a presença da criada. Quando eu ia abrir a boca pra falar com ela, ela me cortou e disse:
_ Eu imagino que você ache que deveria ter sido acordado na noite passada, mas devo esclarecer que tudo estava tão comodamente perfeito que eu também adormeci ao seu lado. Agora você deve comer alguma coisa, coma essas panquecas enquanto eu vou tomar meu café da manhã, se é que você me entende.
_ Tudo bem _ eu disse sorrindo, por causa da estranha conversa que tivemos _ Eu te espero aqui. E obrigado por tudo.
Ela sorriu para mim e disparou pela porta correndo sobre a relva úmida da manha, caçando sua refeição.
As panquecas estavam perfeitas, assim como tudo que ali me fora servido. Após me servir e limpar tudo, a criada se retirou para cuidar do restante da casa. Nenhuma palavra fora dita por ela o que gerou um silencio incômodo. Violet surgiu no portal, me deu um sorriso e disse:
_ Acho que a hora para as perguntas chegou. Vamos, quero que conheça um lugar.
Saímos pela porta da frente, e entramos no carro. Violet dirigia por uma estrada pela qual eu nunca havia passado antes, que nos levava para fora da cidade. Chequei meu celular e vi uma mensagem de Emily, perguntando onde eu havia estado, pois de novo eu havia sumido e então ela achou necessário reforçar as advertências em relação a Violet. Respondi a mensagem tranqüilizando-a e desliguei o celular para que nada nos interrompesse.
Continuamos seguindo por essa estrada por cerca de vinte minutos e estacionamos a um lado da rodovia e seguimos então por um caminho em meio às árvores. Este desembocava em uma praia rochosa, permeada por abetos. Era bonita e tétrica. O mar rugia contras as rochas salpicando água salgada por toda sua extensão.
Subimos algumas rochas até chegar a um ponto mais alto, com muito vento, porém onde as ondas não nos alcançavam com seus respingos. Sentamos na beirada de uma rocha onde podíamos ver a fúria do mar. Era meio que bucólico, mas agradável, e via-se que Violet se sentia confortável ali, talvez pela praia ser pouco freqüentada, ou pela paisagem ou até mesmo pelo barulho das ondas.
Então, depois de contemplar tudo isso, ela se virou pra mim e indagou:
_ Por onde quer começar?
O vento fazia com que seu cabelo ricocheteasse em seu rosto. Uma luz esparsa, proveniente do sol que lutava para passar pela grossa camada de nuvens. O que me fez lembrar algo.
_ Como você sobrevive no sol? Emily me disse que vocês eram suscetíveis a luz solar.
_ Há apenas um jeito. Com a ajuda de uma bruxa, que invoca proteção para algum artefato que você possa sempre levar com você sem ser “suspeito”. No meu caso é esse colar _ ela me mostrou um colar delicado, com um pingente de esmeralda, da mesma tonalidade de seus olhos. _ Quando fui transformada há muito tempo, bruxas e vampiros tinham uma aliança, mas agora não há mais isso. Vivemos pela sobrevivência do mais forte.
_ Não me surpreende que existam outras coisas sobrenaturais que fujam a minha compreensão, mas tudo isso é realmente impressionante. Mas me conte mais sobre sua história.
_ Bom, digamos que eu tenha vivido durante ambas as guerras mundiais e que eu tenha visto Roma cair também _ ela riu ao ver minha cara de espanto _ Sim, eu tenho mais de 550 anos. Eu tinha apenas 18 quando fui transformada por uma dos vampiros mais antigos, os Anziani, ou Anciões. Os Anziani são os vampiros que existem desde os primórdios das civilizações.
Durante uma crise, onde o povo passava por dificuldades, eu fazia parte da nobreza decadente, porem antes do casamento que me fora arranjado, a cidade foi sitiada, eu fui seqüestrada e transformada. Fiquei escrava do meu criador por 50 anos até que um dos outros Anziani me libertou e orientou-me a viver sem me tornar uma assassina impiedosa. Desde então, tenho andado por aí, sem um destino certo, até que soube que meu criador, Remus, estava me procurando, para me escravizar novamente, assim como suas outras “criações”.
_ Confesso que estou sem palavras. Tudo isso não parece real e mesmo assim está por toda a parte e se propagando em minha vida. E por que bruxas e vampiros quebraram as suas alianças ?
_ Bom , algumas foram rompidas por motivos pessoais, mas a grande parte ocorreu pelo fato de que ambos somos inimigos naturais, podendo derrotar um ao outro, o que para humanos não seria fácil em nenhum dos casos. Mas ainda há alianças, principalmente entre os ambiciosos e cruéis.
_ E ninguém nunca soube nada sobre vocês, ou bruxas, ou nada disso. Emily me disse que o sangue de vocês tem propriedades especiais, quais seriam elas?
_ Há diversos usos, a maioria para rituais, mas também serve para permitir uma conexão com os humanos que nos alimentamos, já que nosso “veneno” corre nas veias dele por um tempo se eles não forem mortos. Então essa conexão existe enquanto o sangue perdurar no sistema da pessoa, que em cerca de um mês ou dois o elimina.
_ Se vocês se alimentaram da pessoa até que ela morra, o que acontece?
_ Nós adquirimos as memórias de cada pessoa. E a mantemos para sempre , como parte de nossa própria memória.
_ Deve ser torturante, principalmente para você que se alimenta de prisioneiros e tem que conviver com as atrocidades que eles cometem.
_ Prefiro manter as atrocidades em minha memória, do que as recordações de uma pessoa inocente, com família, e com um futuro promissor pela frente
_ Acho que você está certa.
Miramos o horizonte. A amplidão do oceano fez com que a insegurança e o medo retornassem. Nunca iremos saber tudo o que pode haver lá fora, esperando o momento certo para sair das sombras, e arrastá-lo para dentro dela.
A umidade enchia nossos pulmões. Eu não percebera exatamente quando isso acontecera, mas Violet estava apoiada no meu ombro, e estávamos de mãos dadas. Olhei para seu rosto marmóreo e viu que a palidez habitual fora quebrada por dois filetes vermelhos escorrendo de seus olhos.
_ Você está bem? _ perguntei a ela, que compreendeu o porquê _ O que aconteceu com seus olhos?
_ É assim que nós, vampiros, choramos, choramos sangue. Não é muito agradável de ver, mas não posso evitar, tudo isso me deixou nostálgica e me lembrou do que foi tirado de mim.
Os primeiros pingos de chuva do dia começaram a cair. Provavelmente já era o meio da tarde, mas ambos não sentíamos vontade de ir embora. A chuva batia nas rochas abaixo de nós e o mar estava cada vez mais revolto. A água apagou os traços vermelhos no rosto de Violet. Então decidida ela disse:
_ Vamos embora. Preciso sair daqui.
_ Vamos para minha casa _ eu disse
Fomos juntos até o carro e de lá para minha casa, sem quase nada ser dito. Ela estacionou.
_ Matt, se você não se importa eu preciso ficar sozinha agora. Muita coisa dentro de mim foi revirada com todas as perguntas. Mas eu te vejo amanhã.
_ Tudo bem. Você tem todo o direito. Precisa de um tempo para você. Mas, posso fazer uma ultima pergunta?
_ Claro. Desde que eu a possa responder.
_ No nosso caminho de volta, estive pensando sobre tudo que você disse e algumas peças se encaixaram em minha cabeça. Emily é uma bruxa?
_ Você pode apostar que é. Até amanhã Matt.
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