segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Capítulo 5 - Since she came


    Não é preciso dizer que diante de tal bilhete, eu ficara pasmo. Corri para fora da escola lutando contra a massa sólida de alunos que se acumulava pelos corredores. Deixei uma Emily irritada e um James confuso para trás quando entrei no carro, e dessa vez eu arranquei com o carro dali.
    O caminho até a clareira era um pouco longo e a ansiedade fazia com que se arrastasse ainda mais. Uma leve claridade começava a surgir por entre as nuvens, e a estrada sinuosa deixava de ser tão sombria e úmida, mas conhecendo a cidade como eu conhecia esse clima ensolarado não duraria muito.
     Passei pela frente do Eagle’s Shore que por enquanto estava vazio, e segui mais alguns metros até chegar a trilha que levava à clareira. A trilha era de terra úmida, ladeada por plantas e árvores de habitat úmido. Vesti o meu casaco e segui pela trilha inclinada até a clareira mal iluminada. O lugar era habitualmente usado pelos jovens viciados para usar droga e fazer festas noturnas. No entanto era completamente deserta de dia.
    Chegando na enorme clareira pude ver, através da leve penumbra, Violet, sentada em um tronco fixo ao chão pelo musgo que o cobria, permeado por belas ervas daninhas. Ela estava estonteante, como sempre, mesmo usando suas habituais roupas casuais. Seu rosto estava rígido, decidido porem vagamente cauteloso.
     Aproximei-me dela e pude pela primeira vez notar a força interior que seus magníficos olhos verdes guardavam ressaltados pela luz que penetrava por entre as árvores. A atmosfera estava pesada. O vento gélido que corria por entre as árvores esverdeadas só acentuava tal impressão.
     Então ela disse secamente num tom inquisidor:
 _ O que você viu? Na noite passada, o que você viu?
     As imagens da noite passada afloraram em minha cabeça, especialmente as que se referiam a ela. Até que expeli as palavras de maneira insegura:
_ Você sabe o que eu vi. Por isso me mandou aquele recado, não foi à escola hoje e está aqui falando comigo.
_ Alguém sabe que você viria aqui?
_ Não. Não disse nada a ninguém.
_ Tolo. Se eu resolvesse não deixar você retornar, seria extremamente fácil.
    Ao dizer isso ela me lançou aquele olhar ferino que me dava calafrios, mas que era extremamente provocante. Ela retomou às suas perguntas :
_ Você não tem idéia do que viu? Ou o porque viu?
_ Tenho algumas hipóteses, nada muito sólido, mas tenho pensado a respeito.
_ Sinceramente, eu preferiria que você não pensasse mais nisso ou simplesmente ignorasse inocentemente o que aconteceu.
_ Convenhamos que é impossível fazer isso diante da sucessão de fatos da noite passada.
_ Seria mais seguro para você e a todos os que presenciaram aqueles acontecimentos que tudo fosse esquecido. Encare isso como um conselho, ou um aviso, não como uma ameaça.
_ Eu sabia, desde a noite passada, que você tinha segredos a esconder, mas diante da sua reação percebo que é algo muito maior do que eu imaginava, o que restringe consideravelmente minhas hipóteses.
_ Definitivamente você é esperto, mas subjuguei o valor que você dá a sua vida. Se fosse realmente inteligente já estaria bem longe daqui protegendo a sua vida e não me oferecendo motivos para dar cada vez menos valor a ela.
    Ao dizer isso ela se espreitava vagarosamente de forma ameaçadora em minha direção e a tensão fazia com que a vegetação parecesse um dossel que parecia se fechar cada vez mais sobre nós, sufocantemente.
 _ Nada mais está intacto depois de sua chegada _ eu disse _ muito menos a minha vida.
    O que eu disse de alguma forma a impactou. Sua expressão ferina se desfez e deu lugar a um rosto mais familiarmente doce que eu conhecia. Ao perceber isso comecei a dizer o que vinha remoendo desde a sua chegada.
_ Desde que você chegou, eu me tornei obcecado por você, mesmo só trocando algumas palavras entre as aulas. Então eu realmente não me importo sobre o seu segredo ou sobre a minha vida. Eu nunca desejei alguém tão intensamente como eu a desejo. Eu estou totalmente sobre o seu controle.
    Ela parecia completamente surpresa e abalada. Sua pele ficara um pouco mais pálida que o usual e seus olhos ficaram desfocados como se ela estivesse sufocando dentro de si algo que ela havia deixado em seu passado.
   Durante nossa conversa, o dia voltara a ficar frio e chuvoso. Ela permanecia em sua posição ainda abalada, então, repentinamente ela começou a recuar, rumo a densa floresta atrás dela. Com os olhos aparentemente embargados pelas lembranças, ela disse enfaticamente:
_ Eu realmente aprecio seus sentimentos, mas não os posso retribuir. Não posso viver o mesmo drama novamente. Você não entenderia pelo que eu já passei e que poderia fazê-lo passar. Por favor, ignore a minha existência como a maioria da cidade tem feito...
_ Mas eu não me importo sobre o seu segredo, o quer que ele sej...
_ Eu sou uma vampira _ disse ela, não me deixando concluir a frase _ acredite ou não é o que eu sou. Agora por favor, não me faça passar por outra tamanha perda...
_ Mas que perda? _ perguntei ainda atônito com tamanha revelação que surpreendentemente eu já cogitara.
  Enquanto eu fazia minha pergunta ela desaparecia em meio às árvores, deixando-me na clareira sozinho, surpreso e machucado demais para poder me mover enquanto as primeiras gotas de chuvas batiam em meu casaco e se transformavam em uma chuva forte. Eu estava apaixonado por uma vampira.

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