A chuva continuava intensa enquanto eu permanecia ainda imóvel. As minhas roupas ensopadas coladas ao corpo só pioraram o frio que eu sentia, mas ainda assim tudo parecia insignificante diante do que acabara de acontecer.
Quando a dor em meus ossos rígidos pelo frio se tornou insuportável, resolvi voltar para o meu carro. O interior dele estava mais quente do que lá fora, mas não há realmente muita diferença quando se está ensopado. A cena de Violet desaparecendo pelas arvores bem diante dos meus olhos continuava se repetindo em minha cabeça e ecoando em conjunto com o seu segredo: “Vampira”.
Fiquei no carro tremendo por um bom tempo até eu realmente me conscientizar de que eu tinha que sair dali. Segui de maneira mecânica até minha casa e sem saber exatamente como acabei debaixo do chuveiro quente ainda com minhas roupas. Não sei quanto tempo permaneci ali, sentado com a água quente escorrendo pela minha cabeça, me propiciando uma sensação agradável de conforto que há muito eu não sentia. A campainha tocou e acabou por despertar-me de minha alienação.
Eu gritei para que esperassem enquanto me secava e colocava roupas decentes. Corri descendo as escadas rumo à porta. Ao abri-la, vi Emily e James na soleira, a qual Emily passou por cima e invadiu nervosa a minha sala.
_ Matt, mas que diabos está acontecendo com você? _ gritou ela _ E onde você esteve o dia todo? Tenho tentado falar com você várias vezes, mas parece que você foi abduzido. Algo esta acontecendo aqui Matt, e acho bom que você nos fale agora!
Olhei para James e ele estava constrangido pela atitude de Emily, mas aparentemente também estava preocupado, assim como ela. Então resolvi responder:
_ Emily, escute. Realmente algo impactante tem acontecido comigo, mas por enquanto eu tenho que lidar com isso sozinho.
_ Olha _ disse ela, aparentemente mais calma, mas ainda assim alterada _ eu não sei se de alguma forma isso está relacionado, mas desde que aquela garota, Violet, chegou você tem estado diferente, alienado e apático, até pior do que quando você e Sarah terminaram. Eu acho que como seus melhores amigos, James e eu merecemos pelo menos algumas satisfações da sua parte. Nos já perdemos Sarah, não queremos perder você também.
O peso dentro de mim afundou ainda mais em minhas entranhas ao ouvir isso, fazendo me sentir pior do que já me sentia. Eu queria poder contar tudo a eles, mas eu não podia, pois não era um segredo meu que eu mantinha. Eu, em um impulso, a abracei, como um pedido mudo de desculpas que ela aparentemente entendeu e retribuiu dizendo:
_ Percebi que você está precisando de um tempo sozinho, mas quando quiser conversar poderá contar conosco. Só não suma de novo. Nos vemos amanhã. Boa Noite.
_ Até amanhã Matt _ disse James em suas primeiras e únicas palavras da noite.
_ Obrigado _ eu disse _ Até amanhã.
Fechei a porta, e conclui que eu só precisava da minha cama e nem ao menos dei ouvidos ás reclamações do meu estômago vazio. Me larguei na cama e permaneci fitando o teto pelo tempo que eu julguei sendo algumas horas, até que o cansaço fez meus olhos se fecharem e dar boas vindas a sonhos perturbadores e deprimentes.
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Uma semana se passou desde o encontro na clareira e só consegui ver Violet de relance algumas vezes nos dias em que ela foi à escola, mas sem sinal nenhuma de aproximação.
Meu estado de espírito não melhorou muito nessa semana, e também não soube de progressos na investigação da morte de Susan. Emily e James se mostraram compreensíveis e amigáveis apesar de ainda preocupados sobre a razão da minha brusca e decadente mudança de humor. As provas mensais se arrastariam ainda pelas próximas semanas, portanto Emily e James se encarregaram de ir à minha casa estudar ao invés de ir ao Eagle’s Shore, que andava em baixa desde o crime que ali ocorrera.
Ao término da aula, nos dirigimos cada um para suas respectivas casas para nos encontrar em breve. Em casa, fiz minha rotina habitual e fiquei esperando eles chegarem assistindo ao noticiário local. Uma breve citação a morte misteriosa de Susan fez uma hipótese pateticamente óbvia, que a minha obsessão ocultara, apareceu em minha mente.
E se Viole tivesse alguma relação com a morte dela? E se ela a tivesse matado? E talvez por isso tivesse fugido e me evitado desde então?
Minhas conclusões óbvias foram interrompidas pela chega de Emily e James. Nos sentamos no chão da sala e espalhamos nossos livros na mesa de centro. As provas mensais já haviam começado, mas grande parte delas ainda estava por vir. Começamos com História e depois seguiríamos para Cálculo. No entanto, nossa concentração não durou muito, pois interrompida por um grito lancinante de dor vindo provavelmente da rua.
Emily e eu corremos para fora, para checar o que aconteceu. Mas a única coisa que pudemos ver brevemente, foi o Sr Williams, um morador da vizinhança, lívido de medo sendo arrastado aos gritos por dois pares de olhos vermelhos que se embrenharam na mata fechada e desapareceram.
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