segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Capítulo 8 - Fear and Love


  A pouca cor ainda presente em meu rosto se esvaiu e foi substituída pela palidez do pânico e do medo.
_ Matt, sou eu, abra a porta, depressa! _ berrou Emily, enquanto batia desesperadamente na porta.
  Os degraus sumiram sob meus pés e, por sorte a chave ainda estava na porta. Girei-a e abri a porta, Emily entrou num rompante chorando e gritando e no lugar onde ela estava surgiu um vampiro, com as presas à mostra. Sua expressão era feroz, faminta e a única coisa que o impedia de destroçar o meu pescoço era a soleira da porta. Ele tinha os olhos mais vermelhos que eu já vira, ele era loiro, extremamente pálido e com um rosto fino que em conjunto com o resto fazia com que ele exalasse sua letalidade.
  Vendo que não conseguiria atingir seu objetivo, ele urrou com fúria e esmurrou a parede que circundava o batente deixando a marca de seus punhos na parede sólida.
  Só consegui fechar a porta e cai de joelhos sobre o carpete. Então, pude ver Emily encolhida no canto oposto da sala, tremendo e chorando aterrorizada pelo que acontecera. Eu corri para ela e perguntei:
_ Você está bem? O que aconteceu?
 Entre soluços e crises de choro ela me disse:
_ Eu estava indo para casa, quando uma pedra atingiu o pára-brisa do meu carro. Sem conseguir ver nada consegui ir de ré o mais próximo que eu podia daqui, até que ele investiu contra o carro fazendo-o o rolar pelo barranco perto da curva _ Enquanto ela falava pude ver um pequeno filete de sangue escorrendo pela sua testa _ Eu corri para fora do carro, instintivamente, até aqui. Acho que ele não deve ter me visto sair do carro e agora o estofado do meu carro está espalhado pelas árvores. E o resto você viu.
 _ Mas como ele conseguiu te ver? Não que eu não tenha ficado extremamente aliviado com isso, mas eles não têm sentidos aguçados e toda aquela história?
 _ Sim, eles realmente têm, mas esse devia estar realmente sedento e com os sentidos confusos.
 _ Eles estão atacando qualquer um agora em áreas povoadas cheias de gente espiando pelas janelas?
 _ Matt, nós somos umas das raras pessoas que sabem sobre eles, é obvio que nos tornamos alvos. E ele era um vampiro jovem, por isso os olhos tão intensamente vermelhos e a completa falta de razão. Isso nunca aconteceu comigo antes, me desculpe pelo pânico.
 _ Tudo bem. A propósito, sua pedra funciona, mas você podia ter me avisado de que ela tentaria me queimar. _ Ela riu com o comentário _ Aliás, o que é aquilo?
 _ É uma simples corrente de prata com uma pedra polida e embebida em sangue de vampiro. Aí está o segredo dela.
_ Eles têm sangue? _ perguntei em um tom que me soou extremamente pueril.
_ Sim, dizem que possui propriedades exóticas, mas principalmente reagem com a aproximação de outros vampiros. Por isso é raro o convívio em grupo, diante dessas reações. É bem útil para detectar se eles estiverem por perto. Quanto mais quente e vermelha, mais próximos eles estão. Eu também uso uma, mas como conselho, não a deixe exposta, pode causar perguntas as quais não podemos responder.
_ Entendi, agora me deixe pega um kit de primeiros socorros para cuidar dos seus machucados.
_ Obrigada _ ela disse, grata _ Ah, e além da pedra, sempre procure um lugar ensolarado. Eles são vulneráveis a luz.
_ Nessa cidade será meio difícil achar sol, mas eu me lembrarei disso _ então uma dúvida surgiu na minha cabeça _ Se eles são vulneráveis como Violet sobrevive no sol?
_ Realmente é uma incógnita...
/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/

 Alguns dias se passaram sem que nada substancial ocorresse. Nossa rotina fora quebrada. Agora não podíamos mais sair depois que anoitecesse porque a precaução e o medo nos consumiam, mas era extremamente difícil convencer James a não fazê-lo já que não podíamos dizer nada a ele.
 Na escola, não havia nada de novo também, a visão de Violet se tornara cada vez mais rara, o que me fazia lembrar constantemente da minha existência patética e deprimente.
 Emily e eu estávamos unidos, nunca a vida de um dependera tanto da do outro, e estávamos sozinhos nisso.
 A vida nunca fora fácil, mas nunca fora tão difícil também. Eu ainda tinha minha obsessão por Violet, mas agora o medo se interpunha a ela, e eu estava confuso.
 Ela nunca fizera nada para mim especificamente, mas quem sabe o que poderia ocorrer agora, diante do que descobrira.
 Até que em uma quinta-feira fria, úmida e extremamente nublada eu pude ver a silhueta perfeita de Violet avançando em direção a vaga em que eu estava no estacionamento, logo após o termino das aulas.
 A pedra em meu peito começou a esquentar, mas dessa vez me precavi e a coloquei por cima de uma outra blusa, entre  um moletom e outro para que não me queimasse de novo. Todo o medo, o receio e a atração afloraram naquele momento fazendo uma mistura de emoções que eu nunca vivenciara antes.
 Ela estava a poucos metros, vindo com seu rosto magnífico acompanhado do seu corpo de bailarina e seus passos suaves. Aproximando-se ela disse:
 _ Oi _ ela disse constrangida _ me desculpe por aquela noite. Eu fiz o que era o melhor para você, mesmo você não entendendo.
 _ Agora eu vejo as coisas de uma outra maneira Violet. Descobri muitas coisas desde o nosso último encontro, e agora eu entendo o que fez.
 _ Emily teve ter te mostrado muitas coisas para sua opinião ter mudado tanto. E sim, eu sei sobre ela assim como ela sabe sobre mim. Mas eu não pretendo fazer nada a ela, aliás, a acho muito agradável. É uma pena que ela não pense o mesmo sobre mim – finalizando sua frase, ela riu docemente.
 _ Aparentemente todos sabem sobre todos. A propósito, preciso perguntar algo pendente há certo tempo. Você tem alguma relação com a morte de Susan? Mesmo se tiver, não importa, agora entendo as suas “necessidades”.
_ Vindo de você isso me decepciona um pouco. Você acha que se eu tivesse algo a ver com tudo isso e fosse esse tipo de assassina, você teria saído vivo da clareira? É claro que não fiz nada, não me alimento de pessoas no meio da multidão._ disse ela, o que me soou como uma conversa muito estranha _ E como você deve ter percebido, eu não sou a única da minha espécie na cidade, e eles não são tão “inovadores” como eu.
_ Sim. A maioria dos vampiros não se importa em raptar a primeira pessoa que vêem pela na rua para se alimentar caso estejam com sede. Eu e algumas outras exceções nos alimentamos apenas de animais e alguns tipos de pessoas, como prisioneiros condenados a morte, pessoas feridas de maneira terminal que achamos por aí, e quando a” comida é escassa temos que utilizar os bancos de sangue. Não deixa de ser um crime, mas ajuda na nossa consciência.
 _ Tudo bem _ me senti em um mundo paralelo, mas de certa forma ela estava certa _ Mas eu ainda não entendi completamente por que você desapareceu entre as arvores naquela noite.
_ Porque não era seguro para nenhum de nós dois ficarmos juntos. Eu só fugi porque eu fiquei abalada com o que você disse, mas com o tempo percebi algo. Você se tornou minha obsessão também Matt Lewis, e talvez eu me arrependa disso depois, mas eu não me importo agora.
  E então docemente, ela me beijou.

Capítulo 7 - Emily's Revelations


    Logo em seguida, os vizinhos curiosos começavam a aparecerem suas portas, porém nada conseguiram ver e descontentes por serem levados pra fora por isso, voltaram para suas casas. Emily e eu permanecemos estáticos na soleira, surpresos demais para falar qualquer coisa. James curioso surgiu atrás de nós perguntando o que aconteceu, o qual respondemos, com uma abalada convicção, de que nada havia ocorrido.
  Voltamos para a mesa fingindo que nada havia ocorrido e retornamos falsamente para os estudos, enquanto uma torrente de insegurança e refletia em nossos rostos. Por debaixo da mesa, recebi de Emily dizendo:
  
Depois que terminarmos, me espere voltar acordado, precisamos conversar!
  
  Sem conseguir nos focar em mais nada, resolvemos parar os estudos e Emily e James foram embora. Fiquei sentado no sofá esperando Emily voltar, como James iria levá-la para casa, ela teria que pegar seu carro para voltar, o que me dava algum tempo para me preparar. Agora que estava sozinho pude sentir o medo esmagador sobre mim. Havia mais deles e eles estavam cada vez mais perto cercando as redondezas e matando as pessoas.
  O tempo voou enquanto o medo me sufocava. A campainha tocou e covardemente fui até a porta. Era Emily. Ela não estava tão abalada quanto achei que fosse estar, depois do impacto de ficar sozinha.
_ Como você está? ­_ perguntou ela em um tom preocupado.
_ Estou bem, mas esperava que você estivesse mais abalada._ disse surpreso.
_ Você não é o único que sabe das coisas. Eu percebi que você sabia diante da sua reação. Uma pessoa que nada soubesse provavelmente entraria em choque com aquela cena.
_ Mas... Como você sabe disso? Não é algo que se descobre por aí. _ disse fechando a porta.
_ Eu nunca disse a você e nem mesmo ao James, mas é uma coisa de família. Desde a fundação da cidade, os habitantes têm sido alvos de ataques “inexplicáveis”. Então, as famílias tradicionais se reuniram e encarregaram uma das famílias, no caso a minha, de proteger a cidade contra essas criaturas. Por algumas gerações não houve muito trabalho a fazer, mas houve tempos de crise, onde toda a cidade teve que se mobilizar, mas tudo foi cuidadosamente apagado dos registros.
_ Espera, é muita informação para processar em tão pouco tempo. Quer dizer que já existiram muitos deles e que agora a cidade pode estar cercada por vários deles, apenas esperando para atacar?
_ Não se precipite, não é exatamente assim. Realmente podem haver vários deles lá fora agora mesmo, mas eles não irão simplesmente atacar se expondo de tal maneira. Eles são instintivos, mas não são burros. Eles ficam à espreita, se alimentando e esperando o momento do massacre, se for esse realmente o caso.
_ Então o Sr. Williams e Susan foram mortos por eles? _ perguntei, alimentando meus argumentos.
_ O que sobrar do pobre Williams será achado em breve, e o caso ficará sem solução. Agora, o caso de Susan é realmente peculiar, pois uma morte exposta daquela forma não é própria deles, foge do padrão. Pode ser o resultado de um amador, de um psicopata ou pode haver outro motivo oculto. Mas eu posso te afirmar que a morte dela não foi resultado do par de olhos que vimos hoje. Aqueles olhos são experientes, soturnos e traiçoeiros. Não fariam algo daquela forma.
_ E como exatamente sua família pode defender a cidade deles? Afinal, eles não são letais e toda aquela história?
_ Nós temos nossos meios, mas não é algo que eu possa revelar agora, mas que no tempo certo eu irei te contar.
 Sentei-me no sofá absorvendo toda a informação de outra noite exaustiva e cheia de novidades fantásticas. A cidade absurdamente pacata deixara de ser tão calma em menos de uma semana, então, como será daqui pra frente?
_ Matt _ disse Emily interrompendo meu fluxo assombroso de idéias _ Eu sei sobre Violet, e é por isso que eu imploro que não se envolva com ela. O histórico entre humanos e vampiros não é nada favorável para o nosso lado. E principalmente, nunca convide nem ela nem estranho nenhum para entrar, vampiros podem estar em qualquer lugar.
_ Você está querendo dizer que aquela história obre vampiros precisarem ser convidados para entrar é verdadeira? _ disse em tom irônico para disfarçar o medo e a curiosidade.
_ Diante dos últimos fatos, você duvida do que mais? _ respondeu ela seriamente _ E acima de tudo lembre-se que assim como eu você não passa de uma refeição para eles. E nunca, nunca perambule sozinho, principalmente entre as árvores. É cenário favorito deles.
 Minha mente voou para o encontro com Violet na clareira. Ela poderia ter me matado em um estalar de dedos por pura e simples estupidez. E se ela não for uma sanguinária? E se ela realmente for a assassina de Susan?
_ Matt, eu realmente vou precisar da sua ajuda agora, sobre aquela historia de “cuidar” da cidade. Meus pais não sabem de nada, pois há uma alternância de gerações em relação ao segredo. Eu só podia contar com os meus avós, mas depois da morte deles, eu tenho carregado esse fardo sozinha e tem sido difícil mesmo sem essas criaturas por perto. E a partir de agora, quero que você use isso, sempre.
  Ela me entregou uma pequena corrente de prata, com uma discreta pedra preta triangular presa nela.
_ Eu agradeço, mas como exatamente isso vai me ajudar ou proteger? _ perguntei.
_ Apenas fique atento a ela. Isto irá avisá-lo quando sua vida estiver em risco. E quando ela avisar, reze para que você possa correr ou entrar em casa. Agora eu vou embora, você precisa descansar, o que não será fácil depois de tudo isso. Até amanhã Matt, e me desculpe por ter que dividir essa carga com você.
_ Tudo bem, você sempre pode contar comigo. Até amanhã.
 Fechei a porta e olhei ao redor para a casa escura e vazia que eliminava qualquer sensação de segurança que poderia existir. O relógio iluminado marcava mais de meia-noite. Subi as escadas, já usando a corrente de Emily. Eu contemplava-a num espelho imaginando como isso funcionaria. Tirei-a do pescoço e fechei minha mão sobre a inerte e fria pedra, até que bruscamente senti como se estivesse segurando brasa com as mãos e soltei a pedra com um grito de dor. Olhei para ela e estava vermelho sangue, enquanto alguém desesperadamente esmurrava a porta da frente.

Capítulo 6 - One more week, one more victim


   A chuva continuava intensa enquanto eu permanecia ainda imóvel. As minhas roupas ensopadas coladas ao corpo só pioraram o frio que eu sentia, mas ainda assim tudo parecia insignificante diante do que acabara de acontecer.
  Quando a dor em meus ossos rígidos pelo frio se tornou insuportável, resolvi voltar para o meu carro. O interior dele estava mais quente do que lá fora, mas não há realmente muita diferença quando se está ensopado. A cena de Violet desaparecendo pelas arvores bem diante dos meus olhos continuava se repetindo em minha cabeça e ecoando em conjunto com o seu segredo: “Vampira”.
  Fiquei no carro tremendo por um bom tempo até eu realmente me conscientizar de que eu tinha que sair dali. Segui de maneira mecânica até minha casa e sem saber exatamente como acabei debaixo do chuveiro quente ainda com minhas roupas. Não sei quanto tempo permaneci ali, sentado com a água quente escorrendo pela minha cabeça, me propiciando uma sensação agradável de conforto que há muito eu não sentia. A campainha tocou e acabou por despertar-me de minha alienação.
  Eu gritei para que esperassem enquanto me secava e colocava roupas decentes. Corri descendo as escadas rumo à porta. Ao abri-la, vi Emily e James na soleira, a qual Emily passou por cima e invadiu nervosa a minha sala.
  _ Matt, mas que diabos está acontecendo com você? _ gritou ela _ E onde você esteve o dia todo? Tenho tentado falar com você várias vezes, mas parece que você foi abduzido. Algo esta acontecendo aqui Matt, e acho bom que você nos fale agora!
 Olhei para James e ele estava constrangido pela atitude de Emily, mas aparentemente também estava preocupado, assim como ela. Então resolvi responder:
 _ Emily, escute. Realmente algo impactante tem acontecido comigo, mas por enquanto eu tenho que lidar com isso sozinho.
 _ Olha _ disse ela, aparentemente mais calma, mas ainda assim alterada _ eu não sei se de alguma forma isso está relacionado, mas desde que aquela garota, Violet, chegou você tem estado diferente, alienado e apático, até pior do que quando você e Sarah terminaram. Eu acho que como seus melhores amigos, James e eu merecemos pelo menos algumas satisfações da sua parte. Nos já perdemos Sarah, não queremos perder você também.
  O peso dentro de mim afundou ainda mais em minhas entranhas ao ouvir isso, fazendo me sentir pior do que já me sentia. Eu queria poder contar tudo a eles, mas eu não podia, pois não era um segredo meu que eu mantinha. Eu, em um impulso, a abracei, como um pedido mudo de desculpas que ela aparentemente entendeu e retribuiu dizendo:
_ Percebi que você está precisando de um tempo sozinho, mas quando quiser conversar poderá contar conosco. Só não suma de novo. Nos vemos amanhã. Boa Noite.
_ Até amanhã Matt _ disse James em suas primeiras e únicas palavras da noite.
_ Obrigado _ eu disse _ Até amanhã.
   Fechei a porta, e conclui que eu só precisava da minha cama e nem ao menos dei ouvidos ás reclamações do meu estômago vazio. Me larguei na cama e permaneci fitando o teto pelo tempo que eu julguei sendo algumas horas, até que o cansaço fez meus olhos se fecharem e dar boas vindas a sonhos perturbadores e deprimentes.
 /-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/-/
 Uma semana se passou desde o encontro na clareira e só consegui ver Violet de relance algumas vezes nos dias em que ela foi à escola, mas sem sinal nenhuma de aproximação.
 Meu estado de espírito não melhorou muito nessa semana, e também não soube de progressos na investigação da morte de Susan. Emily e James se mostraram compreensíveis e amigáveis apesar de ainda preocupados sobre a razão da minha brusca e decadente mudança de humor. As provas mensais se arrastariam ainda pelas próximas semanas, portanto Emily e James se encarregaram de ir à minha casa estudar ao invés de ir ao Eagle’s Shore, que andava em baixa desde o crime que ali ocorrera.
  Ao término da aula, nos dirigimos cada um para suas respectivas casas para nos encontrar em breve. Em casa, fiz minha rotina habitual e fiquei esperando eles chegarem assistindo ao noticiário local. Uma breve citação a morte misteriosa de Susan fez uma hipótese pateticamente óbvia, que a minha obsessão ocultara, apareceu em minha mente.
 E se Viole tivesse alguma relação com a morte dela? E se ela a tivesse matado? E talvez por isso tivesse fugido e me evitado desde então?
  Minhas conclusões óbvias foram interrompidas pela chega de Emily e James. Nos sentamos no chão da sala e espalhamos nossos livros na mesa de centro. As provas mensais já haviam começado, mas grande parte delas ainda estava por vir. Começamos com História e depois seguiríamos para Cálculo. No entanto, nossa concentração não durou muito, pois interrompida por um grito lancinante de dor vindo provavelmente da rua.
  Emily e eu corremos para fora, para checar o que aconteceu. Mas a única coisa que pudemos ver brevemente, foi o Sr Williams, um morador da vizinhança, lívido de medo sendo arrastado aos gritos por dois pares de olhos vermelhos que se embrenharam na mata fechada e desapareceram.

Capítulo 5 - Since she came


    Não é preciso dizer que diante de tal bilhete, eu ficara pasmo. Corri para fora da escola lutando contra a massa sólida de alunos que se acumulava pelos corredores. Deixei uma Emily irritada e um James confuso para trás quando entrei no carro, e dessa vez eu arranquei com o carro dali.
    O caminho até a clareira era um pouco longo e a ansiedade fazia com que se arrastasse ainda mais. Uma leve claridade começava a surgir por entre as nuvens, e a estrada sinuosa deixava de ser tão sombria e úmida, mas conhecendo a cidade como eu conhecia esse clima ensolarado não duraria muito.
     Passei pela frente do Eagle’s Shore que por enquanto estava vazio, e segui mais alguns metros até chegar a trilha que levava à clareira. A trilha era de terra úmida, ladeada por plantas e árvores de habitat úmido. Vesti o meu casaco e segui pela trilha inclinada até a clareira mal iluminada. O lugar era habitualmente usado pelos jovens viciados para usar droga e fazer festas noturnas. No entanto era completamente deserta de dia.
    Chegando na enorme clareira pude ver, através da leve penumbra, Violet, sentada em um tronco fixo ao chão pelo musgo que o cobria, permeado por belas ervas daninhas. Ela estava estonteante, como sempre, mesmo usando suas habituais roupas casuais. Seu rosto estava rígido, decidido porem vagamente cauteloso.
     Aproximei-me dela e pude pela primeira vez notar a força interior que seus magníficos olhos verdes guardavam ressaltados pela luz que penetrava por entre as árvores. A atmosfera estava pesada. O vento gélido que corria por entre as árvores esverdeadas só acentuava tal impressão.
     Então ela disse secamente num tom inquisidor:
 _ O que você viu? Na noite passada, o que você viu?
     As imagens da noite passada afloraram em minha cabeça, especialmente as que se referiam a ela. Até que expeli as palavras de maneira insegura:
_ Você sabe o que eu vi. Por isso me mandou aquele recado, não foi à escola hoje e está aqui falando comigo.
_ Alguém sabe que você viria aqui?
_ Não. Não disse nada a ninguém.
_ Tolo. Se eu resolvesse não deixar você retornar, seria extremamente fácil.
    Ao dizer isso ela me lançou aquele olhar ferino que me dava calafrios, mas que era extremamente provocante. Ela retomou às suas perguntas :
_ Você não tem idéia do que viu? Ou o porque viu?
_ Tenho algumas hipóteses, nada muito sólido, mas tenho pensado a respeito.
_ Sinceramente, eu preferiria que você não pensasse mais nisso ou simplesmente ignorasse inocentemente o que aconteceu.
_ Convenhamos que é impossível fazer isso diante da sucessão de fatos da noite passada.
_ Seria mais seguro para você e a todos os que presenciaram aqueles acontecimentos que tudo fosse esquecido. Encare isso como um conselho, ou um aviso, não como uma ameaça.
_ Eu sabia, desde a noite passada, que você tinha segredos a esconder, mas diante da sua reação percebo que é algo muito maior do que eu imaginava, o que restringe consideravelmente minhas hipóteses.
_ Definitivamente você é esperto, mas subjuguei o valor que você dá a sua vida. Se fosse realmente inteligente já estaria bem longe daqui protegendo a sua vida e não me oferecendo motivos para dar cada vez menos valor a ela.
    Ao dizer isso ela se espreitava vagarosamente de forma ameaçadora em minha direção e a tensão fazia com que a vegetação parecesse um dossel que parecia se fechar cada vez mais sobre nós, sufocantemente.
 _ Nada mais está intacto depois de sua chegada _ eu disse _ muito menos a minha vida.
    O que eu disse de alguma forma a impactou. Sua expressão ferina se desfez e deu lugar a um rosto mais familiarmente doce que eu conhecia. Ao perceber isso comecei a dizer o que vinha remoendo desde a sua chegada.
_ Desde que você chegou, eu me tornei obcecado por você, mesmo só trocando algumas palavras entre as aulas. Então eu realmente não me importo sobre o seu segredo ou sobre a minha vida. Eu nunca desejei alguém tão intensamente como eu a desejo. Eu estou totalmente sobre o seu controle.
    Ela parecia completamente surpresa e abalada. Sua pele ficara um pouco mais pálida que o usual e seus olhos ficaram desfocados como se ela estivesse sufocando dentro de si algo que ela havia deixado em seu passado.
   Durante nossa conversa, o dia voltara a ficar frio e chuvoso. Ela permanecia em sua posição ainda abalada, então, repentinamente ela começou a recuar, rumo a densa floresta atrás dela. Com os olhos aparentemente embargados pelas lembranças, ela disse enfaticamente:
_ Eu realmente aprecio seus sentimentos, mas não os posso retribuir. Não posso viver o mesmo drama novamente. Você não entenderia pelo que eu já passei e que poderia fazê-lo passar. Por favor, ignore a minha existência como a maioria da cidade tem feito...
_ Mas eu não me importo sobre o seu segredo, o quer que ele sej...
_ Eu sou uma vampira _ disse ela, não me deixando concluir a frase _ acredite ou não é o que eu sou. Agora por favor, não me faça passar por outra tamanha perda...
_ Mas que perda? _ perguntei ainda atônito com tamanha revelação que surpreendentemente eu já cogitara.
  Enquanto eu fazia minha pergunta ela desaparecia em meio às árvores, deixando-me na clareira sozinho, surpreso e machucado demais para poder me mover enquanto as primeiras gotas de chuvas batiam em meu casaco e se transformavam em uma chuva forte. Eu estava apaixonado por uma vampira.

Capítulo 4 - The Surprising Note


    Permaneci no estacionamento frio e úmido onde Violet me deixara após sua saída furiosa. Fiquei organizando o caos que se passava em minha cabeça até que Emily veio me procurar seguida pelo barulho das sirenes da polícia e da ambulância. Apesar de sua personalidade forte, Emily estava em choque com o que ocorreu, assim como James. Ela me pegou pelo braço e me arrastou novamente até a multidão.
   Nesse meio tempo, a aglomeração se multiplicara. Aparentemente todas as pessoas da vizinhança souberam do ocorrido e foram bisbilhotar. Espalhava-se a notícia de que Susan, apesar de devidamente atendida, não resistiu ao ferimento e morreu. A ambulância levava o corpo enquanto a polícia colhia informações de testemunhas e averiguava o local em busca de pistas. A atmosfera pesada pairava no local e, portanto resolvemos sair dali. Entramos no meu carro, e devido ao estado dos outros dois eu dirigi e eles foram no banco traseiro. O vórtice de acontecimentos ainda passava pela minha cabeça, quando deixei meus amigos em suas respectivas casas e segui para casa. Estacionei o carro, e logo ao entrar, deitei-me no sofá e liguei a televisão no canal de noticias local. Ainda não havia nada sobre a morte de Susan, então fiquei esperando por alguma transmissão especial ou coisa do tipo. Acabei adormecendo durante uma reportagem tediosa sobre os efeitos do clima frio sobre a agricultura local.
  Meus sonhos foram permeados de estranhas visões de Violet, Susan e mortes repentinas acompanhadas de olhos avermelhados e policiais desorientados. Acordei por fim de tal pesadelo. O sofá desconfortável me deixara com dores no pescoço e nas costas, e o relógio luminoso na estante me fez despertar e concluir que se não corresse iria me atrasar. Vesti-me rapidamente, peguei a mochila, tomei um rápido café da manhã composto por cereais e fui direto para o meu carro salpicado da garoa que estava caindo.  O túnel de árvores verdes não me pareceu tão chamativo como me parecera no dia anterior, eu estava com pressa e em busca de algumas explicações. Cheguei na escola, os alunos começavam a lotar o estacionamento, mas mesmo assim não pude ver o carro de Violet lá. Fiquei esperando meus amigos chegarem, e me atualizarem sobre os boatos da morte de Susan. O sinal estava prestes a tocar e nenhum sinal de Violet. Nesse meio tempo, só consegui descobrir que se cogitava que a morte pudesse ser resultado de um assassino presente nas redondezas do bar, ou um ataque animal, o que já era quase descartado devido à precisão dos golpes. Desisti de minha vigília e fui para a aula de Biologia. Era uma das poucas aulas em que Emily e James estavam na mesma sala que eu, assim como Violet, o que tornava sua presença inevitável. Mas já pelo fim da aula eu me frustrara, pois ela não apareceu. O restante do dia se estendeu de forma torturante e vagarosa, com dúvidas fervilhando em minha cabeça. Minha aparência pensativa chamou a atenção dos meus amigos, que me perguntaram o que estava acontecendo. Eu disse que não era nada, apenas a morte de Susan que me perturbara, o que não era integralmente uma mentira. Chegando ao meu armário, abri-o e notei um pequeno pedaço de papel com uma letra meticulosa e refinada caligrafia que dizia:

         Se quiser respostas às suas perguntas, encontre-me na clareira próxima ao Eagle’s Shore. Não diga a ninguém e nem cogite em ir acompanhado. Deixo isso por sua conta e risco.

                                                                                     Violet

Capítulo 3 - Violet's Eyes


    Depois de ter me secado e estar devidamente vestido, desci as escadas e fui até a cozinha, onde o cheiro de lasanha se alastrara pela cozinha e fazia meu estômago se contorcer e me lembrar da minha fome. Peguei o prato, sentei em meu habitual lugar no sofá e liguei a televisão em um canal que transmitia as notícias mais tediosas que eu já vira, mas estava tão entretido com o meu prato que nem me importei. Terminei minha comida, limpei a cozinha e assim como eu esperava a campainha tocou, e ao abrir a porta me deparei com Emily e James em suas usuais roupas. Ela, com botas pretas de cano alto, um sobretudo preto e um conjunto de acessórios que realçava seu cabelo preto levemente arruivado e sua personalidade explosiva e fúnebre. James usava roupas coloridas, porém discretas compostas por moletom, calça e tênis de cores ligeiramente destoantes. Eu calcei meu coturno que ornava, para variar, com meu usual moletom preto, e minha calça jeans.
  Saímos para a noite fria e entramos no meu carro. James foi conduzindo e Emily ao seu lado, portanto me sobrara o banco traseiro.
Vagamos um pouco pelo pouco território da cidade, com seu pequeno litoral e pouco entretenimento disponível. Por fim, nos dirigimos ao único lugar popular entre os jovens da cidade, um bar, que funcionava mais como ponto de encontro do que como bar realmente. O lugar era chamado Eagle’s Shore, por se localizar perto da única praia gélida da cidade. Não havia muito que se fazer lá, exceto se sentar sob a luz das luminárias antigas, beber, comer alguma coisa e jogar sinuca com os habituais freqüentadores do local. Chegaria a ser deprimente, não fosse o fato de que os jovens estudantes da cidade nos últimos anos fizeram com que o nível do lugar melhorasse muito.
   Nos três nos sentamos em uma mesa em um canto e ficamos observando a aglomeração começar a se formar e os rostos foram se tornando mais familiares.Chamamos a garçonete, Susan, que já nos conhecia e pedimos algo para comer, mais especificamente a melhor coisa daquele local, fritas, as quais comíamos vagarosamente. De nossa mesa pude ver Sarah e suas novas amigas, os esportistas do colégio, os artistas, dentre outros grupos formados na escola que denotavam uma imensa separação entre os grupos, a propósito o meu “grupo” e de meus amigos não tinha uma denominação especifica, éramos praticamente invisíveis.
   As janelas embaçadas não permitiam que pudéssemos ver através delas e o ambiente lotado começou a ficar abafado e barulhento. A sobriedade dos frequentadores já começara a se extinguir quando resolvemos sair do local e nos aventurar novamente no tempo frio e costeiro. Pagamos a conta e enquanto nos encaminhávamos para a porta, um grupo aos gritos irrompeu no local. Todos ali estavam com uma expressão desesperada e assustada. Violet estava nesse grupo e percebi que ela não estava assustada como todos os outros, parecia mais desconfortável, acuada e ligeiramente perplexa do que propriamente desesperada.
    O bar silenciou-se e ao sairmos para checar o que aconteceu, lá estava, estirada no estacionamento, Susan, a garçonete que nos servira, aparentemente inconsciente com o pescoço dilacerado e perdendo muito sangue.
   Procurei por Violet em meio àquele alvoroço e só pude vê-la de relance, correndo dali. Deixei meus amigos para trás e corri atrás dela. Ela chegou ao seu carro e enquanto arrancava com ele dali, ela me encarou através do vidro por um instante, um olhar lancinante e agressivo, como o de uma fera acuada. Enquanto ela desviava seus olhos dos meus, pude ver um brilho avermelhado em suas íris. Um brilho sedutoramente letal.

Capítulo 2 - Meet Violet Jones


 Depois de um quase ataque cardíaco, me virei e vi, o que poderia ser a mais maravilhosa miragem existente. Violet.  Ela estava vestida de maneira tão simples, que nem de longe fazia jus à sua beleza exuberante, mas de forma alguma a ofuscava. Enquanto me certificava de que não pareceria um idiota ao responder sua pergunta, ela me fitava serenamente, como se eu fosse a coisa mais interessante que ela já houvesse visto.Tentando não gaguejar, eu disse:
__ Claro, é a segunda sala virando o corredor à direita... Se você quiser posso te acompanhar até lá.
   Não acreditando em exatamente como eu havia dito isso sem nem ao menos parecer ridículo, esperei sua resposta. Alguns segundo que me pareceram séculos, então ela disse:
__ Seria ótimo. A propósito, sou Violet Jones. Prazer em conhecê-lo.
__ Sou Matt. Matt Lewis. Prazer em conhecê-la também.
   Após um breve momento de constrangimento sem motivo, nos dirigimos à sala de álgebra juntamente com Emily e James que, apesar de não estarem no mesmo horário que o nosso, nos acompanharam até a nossa sala, já que a deles se localizava algumas salas depois. Entramos na sala e nos sentamos em nossos respectivos lugares que para minha infelicidade eram bem distantes um do outro. A aula esvaiu-se em devaneios e contas intermináveis até que o sinal tocou e os alunos fugiram da sala de aula como se fosse a própria visão deles de inferno.
    Eu procurei por ela, mas aparentemente ela já havia saído, em velocidade recorde na minha opinião. Na saída me encontrei com Emily e seu inseparável namorado logo que sai do prédio da escola. Enquanto Emily praguejava algum tipo de maldição sobre o professor de Física que lhe dera um F, e James tentava controlar de alguma maneira aquela pessoa impetuosa e feroz, eu procurava por Violet em vão, procurando seu sedan reluzente dentre os que ainda restavam no estacionamento. Despedi-me de meus amigos, sabendo que provavelmente eles acabariam passando em minha casa ao entardecer para o nosso habitual passeio de carro pelos cantos cinzentos de Eagle’s Cove e eu provavelmente teria que inventar alguma desculpa por estar falando tão pouco e estar tão pensativo.
    Dirigi até minha casa, e encontrei a casa vazia assim como esperava. Nada incomum para alguém cujos pais viviam viajando a negócios e passavam muito pouco tempo em casa, o que de certa forma me agradava quando não estava muito propenso a conversas. Abri a geladeira, peguei a minha diária lasanha congelada, coloquei-a no microondas e fui para o banheiro tomar banho e trocar de roupa. Enquanto a água quente caía sobre o meu pescoço percebia o quanto minha vida parecia pateticamente descartável quando ela não estava presente. O que continuava a me afligir era o porquê de ela me encantar tanto e por que eu me iludia pensando que a garota mais fantástica daquela escola poderia se interessar por um simples e comum adolescente, praticamente sem atrativos e que nada fazia além de se iludir ao seu respeito. Continuei nesse devaneio até o bipe do microondas me despertar e  perceber que o banheiro estava imerso em vapor.