Eu parei o carro no acostamento. Não tinha certeza do que estava fazendo, mas abri a porta e me dirigi até ele.
_ James? James é você? _ eu perguntei me aproximando.
Ela estava sugando cada gota de sangue da pessoa abaixo dele. Reconheci-a como sendo um dos andarilhos que freqüentemente estavam pelas ruas da cidade.
De repente, ele ergueu novamente seus olhos para mim, parecendo dois rubis lampejantes, e sua pupila era pulsante. Eu me retesei e o chamei novamente. Ele urrou, mostrou suas presas para mim e avançou em minha direção. Ele ia me atacar. Tentei correr de volta para o carro, mas antes que pudesse sequer me mexer, fui atirado ao chão. Ele estava prestes a fincar suas presas em mim, mas antes que o fizesse Juliet surgiu e disse com indiferença:
_ Não faça nada James _ e ele parou imediatamente _ Ele e Violet merecem uma morte muito pior. E eles são meus.
_ O que você fez com ele? _ eu perguntei me levantando
_ Eu concedi a ela uma benção. Enquanto sua amiga dormia no quarto dele no hospital, eu misturei um pouco do meu sangue ao que ele estava recebendo. E o sufoquei com o travesseiro, mas antes, é claro, adulterei os aparelhos. Então, quando ele se transformou fugiu de lá com o meu auxílio. Vocês não podem me parar, conformem-se ou morram me desafiando. Ele é meu agora, portanto não se metam.
Ela agarrou James pelo pescoço e o arrastou floresta adentro junto com o corpo do andarilho. Eu corri até o carro, me tranquei lá dentro, consciente de que não fosse adiantar nada caso quisessem me matar, e liguei para Violet.
_ Vee, onde você está?
_ Desculpe eu ter saído sem falar nada, eu achei que poderia encontrar Juliet a tempo, mas falhei. Agora estou indo para o hospital. Você já chegou lá? Alguma notícia?
_ Bom, eu fui interceptado por Juliet, mas estou bem _ quando percebi algumas lagrimas rolavam pelo meu rosto _ James foi transformado, nós o perdemos. Para sempre.
O telefone permaneceu mudo por um tempo, até que Violet interveio e disse:
_ Vá agora para o hospital e pegue Emily, vá para minha casa. Ou fazemos algo ou estamos todos condenados a morte.
Dentro de pouco tempo cheguei ao hospital, Emily estava me esperando lá fora, Violet já avisara que a buscaria.
Os olhos dela estavam vermelhos e inchados. Eu não disse nada a ela, apenas contei que Violet tinha descoberto algo e que deveríamos ir à casa dela, o que ela não gostou muito.
De novo, dirigi pela estrada até os arredores da cidade. Emily permaneceu calada o percurso todo até a casa de Violet.
Instalamos-nos na sala confortável e esperamos Violet descer. O clima estava pesado. Emily quebrou o silêncio.
_ Ele virou um vampiro não é? _ ela perguntou quase chorando.
Eu fui até ela e a abracei. Ela não precisou de uma palavra minha para entender. Ela permaneceu firme, mas vi que estava arrasada. Ela era absurdamente forte.
_ Foi por isso que viemos aqui? _ perguntou ela
_ Não sei, Violet não me disse nada.
Violet desceu as escadas e se dirigiu a Emily, e para minha surpresa e a de Emily, ela a abraçou também.
_ Eu sinto muito pelo que ocorreu _ disse Violet
Emily retribuiu o abraço, chorou e cheguei a conclusão de que o mundo estava realmente confuso.
Violet também chorava. Ela limpou as lágrimas vermelhas de seu rosto e se recompôs.
_ Juliet cruzou todos os limites. Precisamos de medidas drásticas.
_ Vee, o que nós podemos fazer? Ela já mostrou que tem armas suficientes para nos matar _ eu disse.
_ Digamos que eu tenha conseguido reforços, mas há assuntos mais oportunos agora. Há algo que Emily pode fazer, exatamente agora. _ ela sacou um pequeno embrulho do bolso e o deu para Emily _ Este colar pertencia à bruxa que fez o meu colar, e ela armazenou muita energia e conhecimento nele, e eu gostaria que você o usasse.
Era um colar com uma grande pedra sextavada, cor de topázio.
_ Obrigado _ disse Emily. _ Mas não entendo como posso usá-lo para nos ajudar exatamente agora.
_ Bom, além de armazenar energia e conhecimento, ela também armazenou suas memórias. E você pode acessá-las e compartilhar com a gente. É uma forma de entender um pouco do meu passado e de Juliet.
_ Tudo bem, mas como isso funciona? _ perguntou Emily, se interessando.
_ Eu não sei exatamente como funciona, mas creio que seja o mesmo principio de conexão que você usou quando ouviu minha “conversa mental” com Matt. E, claro, precisamos unir as mãos para compartilhar as memórias.
Emily concordou e colocou o colar em seu pescoço. Nos demos as mãos e ela começou a se concentrar, e nos pediu o mesmo. Eu permaneci olhando para Violet, sentindo o toque frio de suas mãos até que a imagem que eu via se turvou e tudo ficou escuro. Minha consciência do mundo real havia sumido. E como se abrisse os olhos novamente, uma nova imagem se formou.
Eu via uma ampla campina de relva esverdeada. O sol estava alto, mas propiciava um calor confortável. Havia um muro de pedra a frente, que cercava o que parecia ser um vilarejo. A pessoa que transportava nossa consciência avançou até um pequeno lago onde ela se olhou. Apesar da imagem borrada, podemos ver que ela era magra, tinha longos cabelos ruivos encaracolados que lhe caiam pela cintura. Ela trajava uma roupa tipicamente romana, uma toga branca. Ouvimos alguém chamá-la. Aparentemente seu nome era Katherine. Quem a chamava era uma bela garota que vinha em sua direção. Era Violet. Ela era bem diferente do que é agora. Seu cabelo ondulado chegava até a sua cintura. Sua face era corada e tinha um tom suave, seus olhos esmeralda eram vívidos e brilhantes. Não havia palidez, nem olhos vermelhos, nem presas. Ela era viva e feliz.
Com sua roupa esvoaçando, também uma toga apenas diferente da de Katherine em alguns adornos dourados, ela correu até Katherine.
_ Katherine _ ela disse _ Já vão começar o conselho, vamos, depressa!
Ela sorriu para Violet e ambas correram até o muro de pedra e entraram por um grande portão de estacas de madeira guardado por soldados com lanças. As casas eram pequenas com paredes rústicas se amontoavam enquanto permeavam uma rua bem grosseira composta de blocos de pedra toscamente assentados. Havia várias pessoas sérias pelas ruas se dirigindo a algum lugar que eu não conseguia ver direito devido ao aglomerado. As duas continuaram correndo, se esgueirando pelo meio da multidão e enfim, conseguiram avançar até o suposto lugar do conselho.
Havia uma grande área aberta, uma praça supus. Havia no mínimo algumas centenas de pessoas, e no centro havia uma construção alta, com colunas onde um homem falava com eloqüência e todos o ouviam com demasiada atenção. O homem parecia alguma espécie de líder e, percebendo apenas agora, todos falavam latim e surpreendentemente entendíamos, já que estávamos todos na mente de Katherine. Um pequeno grupo se uniu a esse homem e começaram a discutir juntamente com a população soluções para os problemas do local.
Passou um bom tempo da discussão até que uma movimentação estranha começou. Algumas exclamações crescentes começaram. Katherine agarrou o braço de Violet e disse:
_ Não me solte, e corra o mais rápido que puder assim que eu mandar.
Um vulto branco passou por cima de nossas cabeças e aterrissou junto ao grupo no lugar onde estavam os conselheiros. Ele era pálido, familiarmente pálido. Tinha cabelos escuros que iam até seus ombros em um corte bagunçado e olhos negros intensos. Vestia roupas escuras e pesadas.
Katherine procurou pelos guardas que, a esse ponto já deveriam estar posicionados nos muros e prontos para atacar. Nos lugares onde eles deveriam estar haviam apenas mais vultos brancos como o que aparecera, seus rostos com sangue e olhando famintamente para todos nós.
A pessoa junto do conselho começou a falar
_ Prazer em conhecê-los, meu nome é Remus e devo dizer que não se preocupem. Vocês terão uma morte bem rápida, porém não tão indolor, em especial se resistirem, e por favor, corram isso torna tudo mais interessante.
As pessoas começaram a correr em alvoroço. As figuras pálidas pularam de seus postos e correram para o aglomerado. A última coisa que conseguimos ver foi Remus destroncando o pescoço do líder eloqüente e em seguida cravando os dentes em seu pescoço.
_ Agora! Vamos ! _ disse Katherine, arrastando Violet entre a multidão desesperada.
Elas foram abrindo caminho por entre os rostos em choque e pessoas sendo atacadas. Um vampiro se embrenhou no meio das pessoas e agarrou o braço de Katherine. Com um grito, ela se virou e o arremessou para o meio da multidão através de magia. Violet perguntou com os olhos arregalados.
_ Você é uma bruxa?! _ enquanto ambas corriam freneticamente pelas ruas para a parte mais alta da cidade, onde as construções eram levemente mais sofisticadas.
_ Depois discutimos isso. Agora vamos procurar um lugar para nos esconder. Não podemos fugir, a cidade está sitiada e eles estão cercando os muros.
_ Mas e o resto das pessoas? Meus pais, os criados? _ perguntou Violet.
_ Preocupe-se mais em salvar sua vida. Quanto aos outros, terão sorte se morrerem depressa, acredite. _ disse Katherine arrombando a porta de uma casa e arrastando Violet para um porão.
Era uma casa comum, e não parecia um lugar muito difícil de encontrar.
_ Mas, por que aqui? _ perguntou Violet
_ Isso não é um simples porão. Há uma rede de túneis ligando as casas da nobreza. Por aqui, chegaremos a sua casa sem nos arriscar e poderemos salvar mais alguém, se essas pessoas tiveram a maior sorte de suas vidas.
Seguiram pelo túnel escuro, com uma tocha que Katherine fez, iluminando o caminho com uma luz bruxuleante. Após um período considerável de tempo, passando por varias ramificações até chegar a uma que virava à direita e seguiram por ela.
Saíram no porão da casa de Violet e seguiram acima. Havia um tumulto do lado de fora, mas aparentemente não havia nada ocorrendo lá dentro. O cheiro de fumaça encheu nossas narinas. Elas olharam pela janela e viram uma cena chocante. A cidade baixa estava em chamas, Katherine parecia satisfeita, pois aparentemente ela havia provocado o fogo. Tudo fora sitiado, havia gritos, pessoas correndo desesperadas pelas ruas e, um bando de vampiros que subia para a cidade alta dizimando todos em seu caminho.
_ Suba _ ordenou Katherine pegando Violet pelo braço e a arrastou escadaria cima até os quartos superiores.
Entramos em um grande quarto que parecia estar vazio, apenas os móveis espalhados estavam lá. Repentinamente, a cortina se move e surge uma pessoa por detrás da cortina. Era Juliet. Ela também era bem diferente do que é atualmente. Ela possuía seus cabelos louros e os olhos azuis, porém era corada, com um rosto pueril e assustado.
_ Juliet _ gritou Violet e correu para abraçá-la _ Que bom que alguém sobreviveu.
Mas Juliet não reagiu da mesma forma, ela parecia ofendida por algo que não fora dito ou que não sabíamos.
_ Sobrevivi? _disse Juliet alterada _ Estamos praticamente cercadas por sua causa e você diz que estou salva?
_ Eu realmente não entendo _ disse Katherine _ Viemos até aqui salvá-la e você ainda se zanga?
_ Realmente você não entende _ disse Juliet alcançando a histeria _ A família de Violet tem perseguido o clã deles há muito tempo tentando expulsá-los da região. Agora eles procuram vingança.
_ Eu não acredito em nada do que você diz _ disse Violet quase chorando.
_ Cale-se garota. Você arruinou minha vida. Ia se casar com quem eu amava e que agora deve estar morto por aí, tive que te servir e o chefe do clã vai matar todos até achar você e transformá-la na esposa dele. Estou cansada de ser colocada em risco ou em segundo plano por sua causa. Você vai me pagar, e bem caro.
Juliet correu em direção a Violet e ambas se atracaram. Numa manobra rápida, Juliet tomou o controle de Violet e a empurrou rumo a janela, mas antes de Violet cair ela agarrou o braço de Juliet e ambas caíram pela janela, lançando estilhaços de vidro por toda a parte.
Tudo que pudemos ouvir foi o grito de ambas ao cair e o barulho surdo dos corpos atingindo o chão.
Katherine correu até a janela desesperada. Ela olhou pela janela e pudemos ver os corpos caídos no chão. Um pouco de sangue pontilhava o chão, mas elas estavam vivas ainda quando o bando chegou até elas.
Katherine estava paralisada na janela olhando o bando assustador se aproximar. Remus pegou Violet em seus braços, sorriu sinistramente para Katherine e fincou seus dentes em seu próprio pulso, deixando seu sangue correr, e deu-o para Violet beber. Ela inconscientemente sorveu o liquido escuro e em seguida Remus a mordeu e começou a consumir o sangue dela. Ele repetiu o mesmo processo com Juliet enquanto Katherine via tudo aos prantos.
Então, num piscar de olhos, ouvimos os pescoços de ambas serem partidos. Estava feito. Elas estavam fadadas a eternidade. Katherine começou a correr escada abaixo, pois percebeu que ela seria a próxima, e entrou no túnel, mas antes colocou fogo na casa toda.
Freneticamente, ela correu pelos túneis, concentrada, para que cada casa sob a qual ela passasse entrasse em combustão. Ela correu até chegar aos portões, saindo de um alçapão em uma das torres de vigia. Ela se esgueirou para fora, sem ser vista e correu para fora da cidade até suas pernas cederem sobre o seu peso.
Ela olhou para trás, a cidade se tornaram um reduto de chamas que estalavam sob o céu negro da noite. Com a visão desoladora, começou a chorar, vendo que não poderia ter feito outra escolha além de ter tentando dizimar os vampiros, mesmo que isso incluísse Violet e Juliet, afinal elas não eram mais elas mesmas.
Vultos passaram rapidamente por ela e uma mão fria a agarrou pelo pescoço e a prensou no chão. Era Violet, seus olhos estavam vermelhos e brilhantes, ela estava ensandecida, típico dos recém criados, alem de sua força exacerbada.
_ Bela tentativa _ disse Remus, rindo consigo mesmo _ Você tem talento, mas não achou que realmente pudesse derrotar vampiros milenares com esses truques, não é? _ e rosnou para ela.
_ Remus, deixe-a ir. Ela não nos causou mal algum e ainda levamos as duas “protegidas” dela. Ela não causará mal algum. _ disse um vampiro alto, com os cabelos negros, porem com um rosto próximo de ser benevolente apesar dos olhos rubros.
_ Não pedia sua opinião Dimitri _ disse Remus _ Piedade não é uma característica nossa. Se você adquiriu, então acho que você não seja mais bem vindo entre nós.
_ Então a mate logo e acabe com isso _ disse ele se afastando.
_ Eu não irei matá-la. Tenho maiores planos pra ela. Ela será uma Magjistare _ e Remus riu diabolicamente para Katherine e pegou Violet e Juliet pelos braços _ Vamos embora.
Katherine gritava e se debatia enquanto Dimitri a levava nos braços logo atrás de Remus.
A visão se turvou e tudo ficou escuro de novo, aparentemente Katherine desmaiara. A conexão de desfizera.
Voltamos lentamente à realidade. O rosto de Violet estava marcado de lagrimas vermelhas, então percebi que todos chorávamos diante da cena brusca que víramos.
Até que nos dispersamos e vimos na parede oposta a que estávamos algo impressionante. Havia letras gravadas na madeira, letras que ainda estavam em chamas, que dizia:
Me ajude,
K.
_ Meu Deus _ disse Emily
_ Ela está viva! _ disse Violet num tom surpreso mas ainda assim alegre, como que aliviado. _ Mas onde?
_ Digamos que eu saiba onde ela está _ disse uma pessoa surgindo sorrateiramente na porta com um sorriso discreto nos lábios.
Era Dimitri.
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